CLIPPING DA ABRAFRIGO Nº 2644 DE 03 DE FEVEREIRO DE 2026

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Ano 11 | nº 2644 | 03 de fevereiro de 2026

 

NOTÍCIAS

Arroba subiu em janeiro mesmo com início das cotas chinesas.

Analistas enxergam cenário de preços sustentados ao longo do mês, com salvaguarda asiática gerando efeito “rebote”. O mercado físico do boi gordo terminou janeiro de 2026 com registros de preços firmes para a arroba.

De acordo com o analista de Safras & Mercado Fernando Iglesias, após um começo de mês instável, diante das notícias envolvendo as salvaguardas chinesas, o mercado processou as mudanças advindas das cotas de importação e se recuperou. Conforme Iglesias, ao longo do janeiro, o boi gordo retomou sua trajetória natural de alta nas cotações, influenciado pela demanda aquecida na exportação e a baixa disponibilidade de oferta de gado para abate. “Assim, o mercado fecha janeiro com preços firmes em praticamente todas as praças de comercialização do Brasil”, pontua. A primeira quinzena de fevereiro deve ser marcada por incremento de demanda no consumo interno de carne bovina e de um contexto favorável às exportações, considera o coordenador da equipe de inteligência de mercado da Scot Consultoria, Felipe Fabbri. Segundo ele, o comprador chinês deve acelerar as compras da proteína nos próximos dias por receio de pagar mais futuramente, visto às cotas de importação. “Em nosso entendimento, houve um efeito rebote em relação às exportações para a China. Os Estados Unidos também estão comprando bem, mas a cota já foi praticamente preenchida”, contextualiza. Fabbri lembra que o Brasil pode exportar até 60 mil toneladas de carne bovina ao mercado norte-americano com tarifa 4,5% menor e, passada essa quantidade, retoma-se a cobrança usual de 27%, que ainda deixa a proteína nacional competitiva por lá. “No aspecto de demanda, temos alguns fundamentos que nos ajudam a enxergar um quadro mais altista às cotações no mercado interno e externo. Como ponto de atenção temos a questão do dólar que ao estar mais próximo de R$ 5,15 e R$ 5,20 acaba colocando mais pressão na indústria, achatando a margem. Entretanto, projetamos que a arroba fique próxima ao patamar de R$ 330 até pelo menos o final da primeira quinzena de fevereiro”, considera. Na questão de oferta, Fabbri destaca que o pecuarista tem conseguido segurar mais o gado graças ao volume “confortável” das chuvas a nível Brasil ao longo de janeiro. “Há uma cadenciação de oferta que também colabora para os preços sustentados em fevereiro. Em relação às fêmeas, os dados do Sistema de Inspeção Federal mostram que houve um pouco de desaceleração ao longo de janeiro. Em algumas regiões o preço do bezerro está em sua máxima, então há um estímulo muito grande para manter essas fêmeas dentro da propriedade na estação de monta, o que também reflete na oferta e, por conta disso, devemos ter um mês de fevereiro com preços bastante firmes”, conclui o coordenador da Scot.

AGÊNCIA SAFRAS/SCOT CONSULTORIA

Valores do boi gordo

Os valores do boi gordo, na modalidade a prazo, estavam assim no dia 30 de janeiro em comparação ao final de dezembro de 2025 

Em São Paulo (Capital): R$ 332,00, alta de 3,75% em relação aos R$ 320,00 praticados no final de dezembro; Goiás (Goiânia): R$ 316,00, aumento de 0,96% frente aos R$ 313,00 registrados no encerramento do mês passado; Minas Gerais (Uberaba): R$ 320,00, avanço de 1,59% ante os RS 315,00 do fechamento do mês anterior; Mato Grosso do Sul (Dourados): R$ 316,00, sem alterações frente ao preço registrado no final de dezembro de 2025; Mato Grosso (Cuiabá): R$ 310,00, valorização de 3,33% em comparação aos R$ 300,00 praticados no encerramento do mês passado; Rondônia (Vilhena): R$ 280,00, similar ao preço registrado no final do mês passado. No mercado atacadista, Iglesias sinaliza que o mês foi pautado também por uma recuperação dos preços pagos pelos cortes do dianteiro e do traseiro bovinos: Quarto do dianteiro: precificado a R$ 18,00 por quilo, avanço de 3,15% frente aos R$ 17,45 por quilo praticados no final do mês passado; Traseiro bovino: cotados a R$ 26,00 por quilo, aumento de 2,36% perante os R$ 25,40 por quilo registrados no final do mês anterior.

AGÊNCIA SAFRAS/SCOT CONSULTORIA 

Maior retenção de fêmeas e exportações em alta: impactos na arroba do boi gordo

Diante da menor oferta de fêmeas no mercado, o entendimento da Scot Consultoria é de sustentação nos preços da arroba, com potencial para altas.

A expectativa é que 2026 seja um ano de menor participação de fêmeas nos abates. “Esse movimento deve começar já nesse primeiro semestre”, explica Felipe Fabbri, consultor de mercado da Scot Consultoria. O cenário resulta da mudança de ciclo na pecuária, após quatro anos de uma oferta ampliada da categoria por causa dos preços baixos na reposição. “O mercado passou a ter mais oferta de bezerros e os preços da reposição ficaram pouco atrativos. Isso estimulou a venda de fêmeas. Em 2026, o contexto começa a mudar”, complementa. As cotações do bezerro, segundo Fabbri, estão em patamares máximos em diversas regiões do país. Diante da menor oferta de fêmeas no mercado, o entendimento da consultoria é de sustentação nos preços da arroba, com potencial para altas. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) aponta que as exportações brasileiras de carne bovina devem cair entre 5% e 5,5%. O volume embarcado, no entanto, seria o segundo maior da história. Nesse contexto, o comércio internacional da proteína segue como fator relevante na formação dos preços da arroba. Segundo Fabbri, apesar da perspectiva de queda das vendas, os preços mais altos para exportação devem compensar. “Há uma conjuntura internacional que beneficia o Brasil. Os Estados Unidos enfrentam uma crise de produção e outros mercados têm preços elevados para a carne bovina”, afirma. Com menos boiadas disponíveis e uma exportação ainda robusta, a oferta interna fica mais ajustada. Porém, do lado do consumo, o consultor vê o cenário com otimismo, uma vez que há a expectativa de mais renda circulando na economia. “Tem eleição, tem Copa do Mundo, houve isenção de imposto para quem ganha até R$ 5 mil. De forma artificial, essa renda maior deve chegar ao consumidor”, observa. Dentro do calendário pecuário, a presença maior de fêmeas nos abates se concentra no primeiro semestre. “Isso acontece porque a estação de monta, que é o período reprodutivo nas fazendas, acontece entre setembro e fevereiro do ano seguinte”, ressalta Fabbri. O descarte de vacas vazias, nesse sentido, costuma acontecer neste período. Com a virada no ciclo pecuário, contudo, a tendência é que os pecuaristas mantenham as fêmeas por mais tempo a pasto. O especialista reforça que o movimento deve impactar os preços do boi gordo já no primeiro semestre do ano, limitando a possibilidade de quedas na arroba. Nesse cenário, a combinação entre menor oferta de animais para abate e uma demanda ainda firme tende a manter o mercado do boi gordo mais ajustado ao longo de 2026. “A carne bovina pode colaborar para a manutenção da arroba nos patamares atuais, com potencial de alta no segundo semestre, quando se concentra maior disponibilidade de renda e menor oferta no mercado brasileiro”, conclui.

SCOT CONSULTORIA

ECONOMIA

Dólar fecha em leve alta, a R$ 5,25

Dólar subiu no primeiro pregão de fevereiro

O dólar comercial fechou o dia cotado a R$ 5,258, alta de 0,19% em relação ao fechamento de sexta (30). A oscilação positiva da moeda norte-americana ante o real aconteceu desde os primeiros negócios da sessão. Na mínima do dia, a divisa era vendida por R$ 5,237. Na máxima, o dólar superou os R$ 5,28. Ao final do pregão, avançou 0,19%, vendido a R$ 5,258. A cotação da moeda dos EUA recuou 4,4% em janeiro. A desvalorização registrada no primeiro mês de 2026 foi a maior observada desde junho do ano passado (-4,98%). A queda ocorreu apesar da alta de 1,03% da última sexta-feira, quando a moeda norte-americana superou novamente a marca de R$ 5,20

REUTERS

Ibovespa começa fevereiro no azul com aval de NY, mas Petrobras recua

O ‍Ibovespa fechou em alta na segunda-feira, retomando a tendência positiva após duas quedas seguidas, embora o avanço tenha sido atenuado pelo forte recuo das ações da Petrobras, pressionadas pelo tombo dos preços do petróleo no exterior.

Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa subiu 0,77%, a 182.765,80 , segundo dados preliminares, apoiado por Wall Street, após marcar 182.889,95 na máxima e 181.347,63 na mínima do . O volume financeiro neste primeiro pregão de fevereiro somava R$25,96 bilhões antes dos ajustes finais.

REUTERS

Analistas passam a ver inflação este ano abaixo de 4%, mostra Focus

Analistas consultados pelo Banco Central passaram a ver a inflação abaixo de 4% neste ano, de acordo com a pesquisa Focus divulgada pelo Banco Central na segunda-feira, que trouxe poucas alterações.

O levantamento, que capta a percepção do mercado para indicadores econômicos, apontou que a expectativa para a alta do IPCA em 2026 passou a 3,99%, de 4,0% antes. Para 2027 a projeção segue em 3,80%. O centro da meta oficial para a inflação é de 3,00%, sempre com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou menos. Para o Produto Interno Bruto (PIB), não houve alterações nas estimativas de crescimento de 1,80% tanto para 2026 quanto para 2027. A pesquisa semanal com uma centena de economistas também mostrou que eles seguem esperando a taxa básica de juros Selic a 12,25% ao final deste ano e a 10,50% no próximo. O primeiro corte na Selic, atualmente em 15%, continua sendo esperado para março, de 0,5 ponto percentual.

REUTERS

Retração da indústria do Brasil se aprofunda no início de 2026, mostra PMI

As condições da indústria brasileira se deterioram ainda mais no início de 2026, pressionadas por declínios nas encomendas e na produção diante do enfraquecimento da demanda, mostrou a pesquisa Índice de Gerentes de Compras (PMI) divulgada na segunda-feira.

O PMI, compilado pela S&P Global, caiu a 47,0 em janeiro, de 47,6 em dezembro, marcando a deterioração mais acentuada em quatro meses ao ir ainda mais abaixo da marca de 50 que separa crescimento de contração. “Os primeiros dados do PMI de 2026 reforçam um padrão observado nos meses recentes, com os fabricantes brasileiros avançando para um cenário ainda mais acentuado de retração, em função da persistente fraqueza da demanda”, disse em nota a diretora associada de economia da S&P Global Market Intelligence, Pollyanna De Lima. “Diante da contínua redução nos pedidos em atraso, a ausência de novos projetos e a preferência das empresas por estoques enxutos, é provável que a produção permaneça em território contracionista no curto prazo”, completou. Segundo a pesquisa, deteriorações significativas tanto na demanda interna quanto na internacional por bens brasileiros impactaram fortemente as carteiras de pedidos e os volumes de produção em janeiro. Os bens de capital lideraram o declínio da produção. A contração das vendas foi a décima consecutiva, além de representar a segunda mais acentuada em quase três anos. Em relação às vendas externas, os participantes da pesquisa indicaram as tarifas norte-americanas como a principal razão por trás da queda, com algumas menções à suspensão de pedidos de clientes dos Estados Unidos. Os fabricantes de bens intermediários e de investimento registraram fortes retrações nas vendas totais, enquanto a queda observada entre os produtores de bens de consumo foi apenas marginal. Os bens de capital foram o único segmento a registrar aumento nos novos pedidos para exportação. Os dados de janeiro mostraram ainda que o emprego no setor industrial recuou pelo segundo mês consecutivo, segundo os participantes da pesquisa, devido a medidas de controle de custos e avaliação das condições de demanda. A retração em todo o setor foi acompanhada por novas pressões sobre os custos, o que levou as empresas a elevarem seus preços após quatro meses de concessão de descontos. Os custos de insumos subiram pela primeira vez em três meses, com as empresas pagando mais por alimentos, commodities, componentes eletrônicos, metais, plásticos e têxteis. Apesar do cenário de fraqueza, os fabricantes brasileiros sinalizaram melhora na confiança nos negócios em janeiro, com o nível de otimismo atingindo o patamar mais elevado desde junho de 2025. O sentimento positivo baseou-se nas expectativas de cortes na taxa de juros e de melhores condições de demanda, bem como em investimentos planejados e lançamento de novos produtos.

REUTERS

GOVERNO

Inadimplência no crédito rural foi recorde em 2025

Índice fechou o ano passado em 6,5%, informa o Banco Central. A inadimplência das pessoas jurídicas do agro é mais alta nas operações a taxas de mercado

A inadimplência foi recorde no crédito rural em 2025. Dados consolidados pelo Banco Central mostram que o índice fechou o ano passado em 6,5%, com aceleração em relação aos 2,3% de 2024 e aos 1,1% de dezembro de 2023. As informações estão nas Estatísticas Monetárias e de Crédito divulgadas no fim de janeiro. O cenário é mais complicado nas operações com taxas livres. Nesse recorte, a inadimplência encerrou 2025 a 12% entre as pessoas físicas, com um leve recuo ao pico de 12,3% registrado em novembro. Mesmo assim, o consolidado é recorde. Em 2024, estava em 3,7% e em 2023, em 1,2%. Já nas operações de crédito com recursos direcionados do Plano Safra, aqueles oriundos das exigibilidades de aplicação de depósitos à vista e de poupança rural, nos termos do Manual de Crédito Rural, a inadimplência alcançou 2,6% entre produtores rurais pessoas físicas. Um ano antes, o índice estava em 1,1%. Entre as pessoas jurídicas, o cenário é um pouco diferente. A inadimplência geral do crédito rural acessado por empresas do agro chegou a 0,6% em dezembro de 2025. Mesmo assim, representa um salto de 100% ante os 0,3% do ano anterior. Em dezembro de 2023, o índice estava em 0,4% e em 2022, em 0,2%. A inadimplência das pessoas jurídicas do agro é mais alta nas operações a taxas de mercado. O índice encerrou 2025 em 0,7%, com recuo em relação ao máximo de 0,8% registado nos meses de agosto, setembro e outubro. Em 2022, o indicador estava em 0,1%. Em 2023 e 2024, ele saltou para 0,4%. Já nas operações com taxas reguladas, das linhas de crédito rural com recursos direcionados, a inadimplência ficou em 0,4% ante 0,2% em 2024 e 0,5% em 2023. Nos financiamentos com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ao setor agroindustrial, a inadimplência das pessoas jurídicas ficou em 0,2%, em linha com o histórico recente. Nas pessoas físicas, o índice saltou de 1,3%, em 2024, para 2,5% no encerramento de 2025. Em outubro, o BNDES iniciou as contratações da linha para amortização e liquidação de dívidas rurais para agricultores afetados por adversidades climáticas. Até 23 de janeiro, a renegociação com recursos públicos havia alcançado R$ 6,3 bilhões. Também foram renegociados outros R$ 30,8 bilhões de operações com recursos livres das instituições financeiras. Os números ajudam a explicar a estabilização ou recuo do índice de inadimplência nos últimos meses de 2025.

VALOR ECONÔMICO 

Brasil conquista novos mercados na Malásia e Mianmar

Brasil soma 534 novas aberturas de mercado desde 2023

O governo brasileiro concluiu negociações sanitárias que “permitirão a abertura de novos mercados para produtos agropecuários” na Malásia e em Mianmar, ampliando o acesso de itens do agronegócio nacional a esses destinos. A medida resulta de tratativas conduzidas em conjunto pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE). No caso da Malásia, foi autorizada a exportação de farinha processada e de óleo de aves, produtos derivados de reciclagem animal, processo descrito como responsável por “transformar subprodutos em insumos para nutrição animal”. O país asiático importou quase US$ 1,2 bilhão em produtos agropecuários brasileiros no último ano, segundo os dados informados. Em Mianmar, as negociações resultaram na autorização para exportação de amendoim, gergelim, castanha-do-brasil, castanha de baru e mudas de café. De acordo com o texto, a medida “expande e diversifica a pauta exportadora” brasileira. Em 2025, Mianmar importou mais de US$ 38 milhões em produtos agropecuários do Brasil.

MAPA

FRANGOS & SUÍNOS

Viabilidade econômica desafia avanço sustentável das granjas de suínos no Brasil

Pressionadas por exigências ESG, granjas enfrentam altos custos de adaptação, dilemas produtivos e a necessidade de equilibrar bem-estar animal, exigências ambientais e competitividade no mercado interno e externo.

“A sustentabilidade deixou de ser um diferencial e se tornou uma condição de permanência no mercado”, afirma a zootecnista Sula Alves, doutora em Agronomia e diretora técnica da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), defendendo que o tema deve ser encarado como um processo contínuo de evolução e não uma imposição regulatória. Segundo ela, a suinocultura brasileira já demonstra avanços importantes, mas enfrenta desafios que vão desde o alto custo de adaptação das granjas até as exigências globais por rastreabilidade e desmatamento zero. Zootecnista Sula Alves, doutora em Agronomia e diretora técnica da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA): “Precisamos de instrumentos que estimulem a adoção de boas práticas, como linhas de crédito verdes, programas de capacitação e incentivos à inovação. O produtor quer fazer certo, mas precisa de condições para isso”

Entre os temas mais sensíveis estão o bem-estar animal e o uso de antimicrobianos, duas dimensões cada vez mais interligadas. “Quando o ambiente causa estresse, o animal fica mais vulnerável a doenças. Isso eleva a necessidade de antibióticos, o que compromete tanto o bem-estar quanto a sustentabilidade do sistema”, explica Sula. Estudos apontam que cerca de 73% dos antimicrobianos utilizados no mundo são empregados na produção animal. O uso inadequado desses medicamentos é um dos fatores associados ao avanço da resistência antimicrobiana (RAM), reconhecida pela ONU como uma das maiores ameaças à saúde global. “Políticas claras de uso racional de antibióticos não são apenas uma exigência sanitária, mas uma demonstração de responsabilidade socioambiental. Elas impactam diretamente as avaliações ESG das empresas”, avalia. No entanto, adotar práticas mais sustentáveis, segundo Sula, esbarra no que ela chama de paradoxo da sustentabilidade, o dilema entre o ideal ambiental e a realidade econômica. “Nem sempre a conta fecha. Eliminar certas práticas produtivas ou antibióticos pode reduzir a eficiência, aumentar custos e comprometer a rentabilidade. É preciso avançar com equilíbrio, para que sustentabilidade não se torne inviabilidade”, pondera. Um dos exemplos mais emblemáticos desse impasse é a transição das celas de gestação para baias coletivas. A mudança busca oferecer mais liberdade de movimento às fêmeas, mas exige alto investimento em infraestrutura. Segundo levantamento do Observatório Suíno de 2024, o custo elevado e a dificuldade de financiamento são as principais barreiras. “As pequenas e médias granjas são as que mais sofrem. Muitas não têm espaço ou capital para reformas e, em alguns casos, precisariam reduzir o plantel para se adequar. Isso ameaça a sobrevivência de produtores familiares e cria um problema social no campo”, alerta a zootecnista. A especialista também destaca dilemas éticos e práticos ainda sem solução definitiva, como o corte de cauda e o desgaste de dentes. “São procedimentos usados para evitar ferimentos entre animais. Banir sem alternativas eficazes pode gerar mais sofrimento do que resolver. A ciência precisa caminhar junto com a regulação”, reforça. Se o bem-estar animal impõe desafios internos às granjas, o aspecto ambiental amplia o campo de pressão. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) estima que a produção animal seja responsável por 14,5% das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE). O dado coloca o setor no centro das discussões sobre as metas climáticas do Acordo de Paris, que prevê limitar o aumento da temperatura média global a 1,5°C. Na suinocultura, as principais fontes de emissões são o metano (CH4), liberado no manejo de dejetos, e o óxido nitroso (N2O), resultante da decomposição de resíduos e do uso de fertilizantes. “O grande desafio brasileiro está nas emissões indiretas, o chamado escopo 3, que incluem a origem dos grãos usados na alimentação animal. Garantir que a soja da ração não venha de áreas desmatadas é uma exigência crescente de importadores e consumidores”, destaca Sula. Para isso, empresas têm investido em rastreabilidade e monitoramento rigoroso das origens de grãos, checando listas de embargo e adotando sistemas digitais de verificação. “A meta de desmatamento zero é inegociável para o mercado internacional. As cadeias que não se adaptarem perderão espaço”, menciona a diretora da ABPA. Ao mesmo tempo, soluções de economia circular vêm ganhando força. O uso de biodigestores para converter dejetos em biogás e biofertilizantes transforma um passivo ambiental em ativo econômico. “É uma estratégia que reduz emissões, diminui custos com energia e ainda pode gerar novas fontes de receita. O produtor passa a ver o resíduo não como problema, mas como oportunidade”, explica. Apesar das dificuldades, a especialista acredita que o país tem condições únicas para se destacar. “O Brasil reúne uma cadeia organizada, base tecnológica sólida e produtores cada vez mais conscientes. Isso nos coloca em posição de liderança na agenda global de sustentabilidade em proteína animal”, avalia. “Precisamos de instrumentos que estimulem a adoção de boas práticas, como linhas de crédito verdes, programas de capacitação e incentivos à inovação. O produtor quer fazer certo, mas precisa de condições para isso”, salienta. Para Sula, a sustentabilidade da suinocultura é um conceito que vai muito além do ambiental. “Ela abrange o bem-estar dos animais, das pessoas e do planeta. É uma construção coletiva, que exige diálogo, transparência e compromisso de toda a cadeia”, ressalta.

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