
Ano 11 | nº 2665 | 06 de março de 2026
NOTÍCIAS
Estabilidade no mercado do boi gordo em São Paulo
Fundamentos como oferta enxuta e escalas curtas mantiveram as cotações firmes.
Segundo os dados da Scot, o boi gordo sem padrão-exportação segue cotado em R$ 352/@ em São Paulo, enquanto o “boi-China”, a vaca gorda e a novilha terminada são negociados por R$ 355/@, R$ 325/@ e R$ 337/@, respectivamente (valores brutos, no prazo). As negociações no mercado do boi gordo estiveram mais lentas em relação aos dias anteriores, mesmo em semana de pagamento de salários, período que normalmente estimula o consumo no fim de semana e, consequentemente, eleva o volume de negócios. Com a escalada do conflito no Oriente Médio, surgiram receios em relação ao comércio internacional de carne bovina. Diante desse cenário, parte da indústria frigorífica — especialmente as exportadoras — optou por se retirar temporariamente das compras, aguardando maior clareza sobre os possíveis reflexos dos acontecimentos no mercado global. As indústrias que permaneceram ativas negociaram com cautela, mas dentro das referências vigentes. Já os frigoríficos voltados ao mercado interno seguiram ativos na compra de boiadas, buscando compor escalas de abate, apoiados pelo bom consumo doméstico, que tende a ganhar força com a passagem do quinto dia útil. Houve relatos de tentativas de negociação abaixo das referências, porém sem sucesso. Os fundamentos do mercado permaneceram os mesmos: oferta enxuta, escalas de abate curtas e a ponta vendedora firme em suas pedidas. Assim, na comparação diária, as cotações permaneceram estáveis para todas as categorias. Na Bahia, na comparação feita dia a dia, vaca e novilha registraram alta de R$5,00/@ na região Sul. Na região Oeste as cotações não apresentaram alteração. Em Santa Catarina o mercado esteve firme, e as cotações de referência não mudaram. As escalas estavam, em média, para seis dias.
SCOT CONSULTORIA
Boi gordo: encarecimento da logística no Oriente Médio paralisa mercado
Indústria frigorífica avalia os problemas logísticos causados pelo conflito e se ausenta das compras temporariamente
O mercado físico do boi gordo interrompeu uma escalada de preços que seguiu durante todo o mês de fevereiro para manter patamares mais acomodados no decorrer da quarta-feira (4). O analista da consultoria Safras & Mercado Fernando Henrique Iglesias destaca que o ambiente de negócios segue travado, com a indústria frigorífica ainda avaliando os problemas logísticos causados pelo conflito no Oriente Médio. “Em uma análise inicial o encarecimento da logística parece ser a consequência mais óbvia. O mercado se tranquilizou após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assegurar que os navios terão tráfego garantido no estreito de Ormuz”, disse. Preços médios do boi gordo: São Paulo: R$ 355,17 — ontem: R$ 355,50. Goiás: R$ 335,54 — ontem: R$ 335,71. Minas Gerais: R$ 345,88 — ontem: R$ 345,29. Mato Grosso do Sul: R$ 341,02 — ontem: R$ 340,91. Mato Grosso: R$ 338,04 — ontem: R$ 338,18. O mercado atacadista ainda se depara com preços acomodados. Segundo Iglesias, o ambiente de negócios ainda sugere por algum espaço para alta dos preços da carne com osso, mas o movimento tende a acontecer de maneira moderada. “Vale mencionar que a carne bovina segue perdendo competitividade em relação às proteínas concorrentes, em especial na comparação com a carne de frango”, pontuou Iglesias. Quarto dianteiro: ainda é precificado a R$ 21,00 por quilo; Quarto traseiro: segue a R$ 27,00 por quilo; Ponta de agulha: segue precificada a R$ 19,50, por quilo.
SAFRAS NEWS
Boi/Cepea: Bezerro é negociado acima de R$ 3 mil em quase todas as praças
Os preços dos animais para reposição (bezerro nelore, de 8 a 12 meses) estão em movimento de alta desde o final de 2025. Neste início de ano, o animal é negociado acima de R$ 3.000/cabeça na maior parte das 28 regiões acompanhadas pelo Cepea.
Em Mato Grosso do Sul, o bezerro foi comercializado em fevereiro à média de R$ 3.158,74/cabeça (Indicador CEPEA/ESALQ), a maior, em termos reais (valores foram deflacionados pelo IGP-DI), desde dezembro de 2021. Neste começo de março, o bezerro segue em valorização, com a média da parcial do mês a R$ 3.236,30. Em um ano, o preço do animal de reposição sul-mato-grossense subiu pouco mais de 20%. Pesquisadores do Cepea apontam que a valorização é influenciada pela menor oferta de machos e pela demanda mais aquecida. Ressalta-se que, sazonalmente, os meses de março e maio são os que apresentam os maiores patamares de preços de reposição, uma vez que os terminadores demandam mais bezerros para repor os bois gordos que saem de suas fazendas neste período do ano. Pelo lado da demanda, a forte procura dos frigoríficos por novos lotes de boi gordo para abate – especialmente para atender à exportação – mantém os pecuaristas terminadores ativos nas aquisições de novos lotes de bezerro e de boi magro.
CEPEA
Rastreabilidade bovina pode virar ativo valorizado antes de 2032
Sistema único nacional promete agregar valor ao rebanho, abrir mercados e premiar quem sair na frente.
Com a implantação gradual do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), o produtor passa a lidar com um novo ativo: a informação vinculada ao animal. A expectativa é que, até 2032, toda movimentação esteja integrada a um sistema único nacional. Para o produtor rural, o ponto central é compreender que o animal rastreado pode ganhar valor antes mesmo da obrigatoriedade total. Durante o período de transição, parte do rebanho estará identificada individualmente e outra parte ainda não. Esse intervalo tende a representar oportunidade de valorização para quem se organizar primeiro. A partir de 2032, a identificação na primeira movimentação será obrigatória em todo o território nacional. Até lá, o cronograma prevê etapas intermediárias que exigem planejamento. O movimento já mobiliza estados, indústrias e entidades do setor, indicando que a rastreabilidade será permanente e estruturante para a pecuária brasileira. A avaliação é de que, no futuro, o animal rastreado se torne padrão de mercado. Segundo Aécio Flores, vice-presidente da ABCAR e coordenador do Grupo de Trabalho de Rastreabilidade da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, a diferenciação atual abre espaço para valorização do rebanho identificado. “Acredito que depois de 2032, com a obrigatoriedade, pode gerar uma commodity do animal rastreado”, afirmou, explicando que a antecipação cria um período de maior precificação desse ativo. Ele complementa que, quando a rastreabilidade estiver consolidada, a lógica de preço pode se inverter. “O decréscimo de preço vai ser para animal que vai estar fora do processo”, disse, ao destacar que frigoríficos e mercados mais exigentes tendem a priorizar animais com histórico comprovado. Isso significa que a informação agregada ao boi passa a influenciar diretamente a remuneração. Nesse cenário, o produtor que adotar o sistema mais cedo pode colher benefícios antes da massificação. A rastreabilidade deixa de ser apenas uma obrigação futura e passa a ser instrumento de competitividade, incorporando dados ao produto e fortalecendo a posição da fazenda na cadeia. Uma dúvida recorrente entre pecuaristas é a possível duplicidade entre PNIB e SISBOV. Aécio esclareceu que não haverá sistemas paralelos. “Não existe PNIB e SISBOV em paralelo. A base de dados é a mesma”, afirmou, reforçando que a infraestrutura será integrada dentro do Ministério da Agricultura. Segundo ele, o PNIB funcionará como base central da rastreabilidade nacional, enquanto o SISBOV continuará operando protocolos específicos de exportação, acessando a mesma camada de dados. “Não tem replicação de dados. O dado do produtor vai ser sempre o mesmo”, pontuou. O calendário oficial prevê o início das metas intermediárias em 2027. Nessa etapa, passa a ser obrigatória a identificação de fêmeas no manejo sanitário relacionado à brucelose e tuberculose, além de animais inseridos em protocolos específicos. De 2027 a 2030, o setor terá período de adaptação para consolidar a cultura de controle individual. A partir de 2030, inicia-se a exigência de identificação na primeira movimentação, tornando-se obrigatória em 2032. “O animal ao sair da minha propriedade precisa ser identificado e vinculado à guia de trânsito animal”, explicou Aécio. Ele destacou que o Brasil já possui controle por meio da GTA. “A gente já tem uma rastreabilidade por GTA, só vai melhorar esse controle individualizando o animal”, afirmou. O objetivo é ampliar a precisão das informações e permitir rastrear o histórico produtivo com mais segurança. Lisandro Inakake, gerente de projetos da IMAFLORA, avaliou que sair na frente pode trazer ganhos estratégicos. “Quem se movimenta primeiro tem vantagens, porque se estrutura antes e comunica antes”, disse. Estados que investirem cedo podem oferecer ambiente mais competitivo ao pecuarista local, ampliando oportunidades comerciais. Lisandro também destacou que a rastreabilidade contribui para comunicar com mais precisão a realidade da produção nacional. Ele citou estudo acadêmico indicando que a maioria das propriedades está conforme a legislação. No estado do Pará, dados do programa de auditoria da carne apontaram alto índice de conformidade entre propriedades auditadas. Para Lisandro, esses números demonstram que há mais pontos positivos do que negativos a comunicar ao mercado. A rastreabilidade não termina na porteira. A indústria frigorífica já começa a incorporar informações do animal ao produto, ampliando a transparência ao consumidor. “A tendência é entregar mais informação junto com o produto”, afirmou Aécio. Segundo ele, a peça de carne poderá trazer dados sobre origem, raça e propriedades envolvidas.
NOTÍCIAS AGRÍCOLAS
ECONOMIA
Dólar sobe mais de 1% no Brasil em novo dia de busca global por segurança
Depois de ter encerrado a sessão da véspera em baixa, o dólar fechou a quinta-feira em alta firme no Brasil, superior a 1%, acompanhando o avanço da moeda no exterior, com investidores voltando a buscar a segurança da divisa norte-americana em meio à guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã.
O dólar à vista fechou com alta de 1,33%, aos R$5,2879. No ano, a divisa acumula agora queda de 3,66%. Às 17h02, o dólar futuro para abril — o mais líquido no mercado brasileiro — subia 1,01% na B3, aos R$5,3230. Na quarta-feira, em uma sessão de alívio para os ativos de risco, o dólar à vista havia recuado, mas nesta quinta-feira a moeda voltou a subir ante quase todas as demais divisas, em meio à guerra no Oriente Médio. O petróleo também voltou a registrar ganhos fortes, com o Brent negociado em Londres sendo cotado acima dos US$85 o barril. “Vimos ontem uma despressurizada na moeda norte-americana, e eu até achei que iria cair mais, mas não adianta — quando tem cenário extremo de guerra, o dólar sobe”, comentou durante a tarde Thiago Avallone, especialista em câmbio da Manchester Investimentos. “No momento, com base nas notícias conhecidas, não é possível prever quanto tempo este conflito irá durar e/ou se vai escalar. Assim, R$5,20 ou menos, com base nas recomendações passadas, é nível interessante para termos proteção, principalmente para aqueles que estão mais expostos, menos comprados”, disse em uma análise enviada a clientes pela manhã o diretor da consultoria Wagner Investimentos, José Faria Júnior, em recomendação para importadores. “Ainda é cedo para afirmar que o pior já passou… Dólar acima de R$5,30-R$5,34 tende a estressar, é preciso ter esta ponderação”, acrescentou, na recomendação para exportadores. Durante evento do Goldman Sachs, em São Paulo, o diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, afirmou que a instituição tem feito rolagens menores de swaps que estão para vencer para não atrapalhar a formação de preços no mercado de câmbio. “Percebemos ano passado que parecia que estávamos atrapalhando ao fazer a rolagem de swaps”, disse. No vencimento mais recente, de 2 de março, dos 750.000 contratos que estavam para vencer, o BC rolou apenas 725.000 contratos. Os 25.000 contratos da diferença, equivalentes a US$1,25 bilhão, venceram normalmente.
REUTERS
Ibovespa fecha em queda com incerteza sobre Oriente Médio
O Ibovespa fechou em queda de mais de 2% na quinta-feira, com o conflito no Oriente Médio voltando a pressionar mercados acionários no mundo, enquanto Braskem resistiu ao viés negativo e disparou mais de 15% na bolsa paulista.
Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa caiu 2,46%, a 180.803,62 pontos, de acordo com dados preliminares, tendo marcado 179.895,37 na mínima e 185.366,35 na máxima do dia. O volume financeiro no pregão somava R$29,5 bilhões antes dos ajustes finais.
REUTERS
Desemprego fica em 5,4% no trimestre encerrado em janeiro, menor taxa para o período na série histórica
Segundo o IBGE, o país tinha 5,9 milhões de desempregados no período analisado; renda do trabalhador e massa de rendimentos atingem novos recordes
A taxa de desemprego no país foi de 5,4% no trimestre móvel encerrado em janeiro. O resultado ficou igual ao verificado no trimestre móvel anterior, encerrado em outubro (5,4%), e abaixo do resultado de igual período de 2025 (6,5%). A taxa é também a menor para um trimestre encerrado em janeiro de toda a série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 2012. No trimestre encerrado em dezembro, a taxa estava em 5,1%. Os dados foram divulgados na quinta-feira (5). O resultado ficou em linha com a mediana das expectativas de 19 consultorias e instituições financeiras ouvidas pelo Valor Data, que apontava para uma taxa de 5,4% no trimestre móvel encerrado em janeiro. O intervalo das projeções ia de 5,2% a 5,5%. No trimestre encerrado em janeiro, o país tinha 5,9 milhões de desempregados – pessoas de 14 anos ou mais que buscaram emprego, mas não conseguiram encontrar. O número aponta recuo de 1% frente ao trimestre anterior, encerrado em outubro (menos 59 mil pessoas). A variação é classificada como estabilidade estatística pelo IBGE, por estar dentro da margem de erro da pesquisa. Frente a igual período de 2025, a queda é de 17,1% (menos 1,211 milhão de pessoas). O resultado do trimestre encerrado em janeiro engloba os meses de novembro, dezembro e janeiro. Nesse período, a população ocupada (empregados, empregadores, funcionários públicos) era de 102,7 milhões de pessoas. Isso representa uma variação de 0,1% em relação ao trimestre anterior (mais 116 mil pessoas ocupadas). Frente a igual trimestre de 2025, subiu 1,7% (1,683 milhão de pessoas). A taxa de informalidade no mercado de trabalho brasileiro chegou a 37,5% no trimestre encerrado em janeiro. O número fica acima apenas do trimestre encerrado em junho de 2020, quando foi de 36,6%. Naquele momento, no entanto, a redução da informalidade era explicada pela saída dos trabalhadores informais do mercado de trabalho por causa da necessidade de isolamento social no início da pandemia. Essa informalidade baixa, portanto, teve a ver com o chamado efeito composição: os trabalhadores que mais permaneceram empregados foram aqueles de carteira assinada. “O momento atual é o melhor para a qualidade do emprego existente de toda a série histórica”, afirmou a coordenadora das pesquisas por amostra de domicílios do IBGE, Adriana Beringuy. “Temos uma população ocupada que segue estável como um todo. E o ramo informal, embora estável, porque a variação não foi tão intensa, reduz um pouco mais. […] As principais parcelas da informalidade tenderam a diminuir. Ainda temos um contingente grande de informais, de 38 milhões, mas com tendência a redução.” A renda média dos trabalhadores avançou 2,8% no trimestre encerrado em janeiro, ante trimestre móvel anterior (encerrado em outubro) para R$ 3.652. É o valor mais alto de toda a série histórica da Pnad Contínua. A diferença é de R$ 100 a mais. O rendimento médio real habitual dos trabalhadores considera a soma de todos os trabalhos. Na comparação com igual trimestre de 2025, houve alta de 5,4% (R$ 186 a mais). Já a massa de rendimentos real habitualmente recebida por pessoas ocupadas (em todos os trabalhos) foi de R$ 370,3 bilhões no trimestre móvel encerrado em janeiro. O número subiu 2,9% frente ao trimestre móvel anterior (encerrado em outubro) ou R$ 10,527 bilhões a mais, e atingiu novo recorde. Frente a igual período de 2025, o aumento foi ainda maior, de 7,3% (mais R$ 25,108 bilhões).
VALOR ECONÔMICO
Brasil tem superávit comercial de US$4,208 bi em fevereiro, em linha com o esperado
A balança comercial brasileira registrou superávit de US$4,208 bilhões em fevereiro, ante um resultado negativo de US$467 milhões observado no mesmo mês de 2025, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) divulgados na quinta-feira.
Pesquisa da Reuters com economistas apontava para uma expectativa de resultado similar, um saldo positivo de US$4,228 bilhões para o período. O resultado das trocas comerciais do país no mês passado é fruto de US$ 26,306 bilhões em exportações, que cresceram 15,6% na comparação com fevereiro de 2025, e US$22,098 bilhões em importações, que recuaram 4,8% no período. Nas exportações, houve alta dos embarques de todos os setores, com destaque para a indústria extrativa, com aumento de 55,5%, puxada por altas expressivas nas vendas de petróleo e minério de ferro. Os ganhos foram de 6,3% na indústria de transformação, com vendas maiores de carnes, e de 6,1% na agropecuária, sob impulso das vendas de soja. Do lado das importações, houve queda na chegada ao país de bens intermediários e bens de capital, recuo mais relevante do que as elevações observadas em bens de consumo e combustíveis.
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Calibração da Selic não é afrouxamento e ciclo do BC vai terminar em ponto restritivo, diz diretor David
O diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, disse na quinta-feira que a esperada “calibração” na Selic neste mês não representa um afrouxamento da política monetária, enfatizando que a autarquia não busca uma taxa de juros real neutra e que o ciclo de corte vai terminar ainda em ponto restritivo.
Em evento do Goldman Sachs, em São Paulo, David afirmou que a indicação futura de corte de juros dada pelo BC em janeiro “segue válida”, ressaltando que essa orientação vale apenas para a reunião de março do Comitê de Política Monetária (Copom). “É um processo de calibração, não é um processo de afrouxamento da política monetária. A busca aqui não é a taxa de juro neutro”, disse. “Esse processo de calibração passa por terminar em ponto restritivo.” O diretor acrescentou ser esperada uma maior volatilidade no mercado neste ano por conta das eleições presidenciais, o que diminui a eficácia da política monetária. Para ele, a “camada extra de juros” aplicada pelo BC até o momento será bastante útil nesse ambiente. “Com tudo isso posto, o Comitê decidiu que o processo de calibração deve começar na próxima reunião, e por isso que é uma calibração, a gente está vendo até onde a gente pode ir”, disse. Em janeiro, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manteve a Selic em 15% ao ano, mas sinalizou de forma clara a intenção de iniciar o processo de corte da taxa neste mês. No mercado, a principal dúvida é sobre qual será o tamanho do corte na reunião, após a incerteza global ter aumentado com o início da guerra de EUA e Israel contra o Irã. Desde então, investidores reduziram as apostas em um corte de 50 pontos-base e elevaram as posições em uma redução de 25 pontos-base. Em sua fala, David disse não poder antecipar decisão do Copom, acrescentando que o acontecimento no Irã é relevante, mas cercado de incertezas e será analisado pelo BC com serenidade. “Serenidade não significa inação, é tirar a emoção do tratamento dos dados”, afirmou. O diretor disse que uma eventual alta persistente da cotação do petróleo, sob efeito do conflito, geraria pressão inflacionária. Ele ponderou que a materialização de um cenário desse tipo seria menos complexa de ser enfrentada no atual momento do que se tivesse ocorrido há seis meses. David pontuou que o BC “não reage a ruídos” e não se emociona com um dado melhor ou pior, e que o horizonte da política monetária é de 18 meses. “Estamos pilotando um petroleiro”, comparou. Na apresentação, o diretor disse que o crescimento econômico do país — que vinha apresentando dinamismo maior que o esperado — parece estar agora dentro do seu potencial.
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EMPRESAS
Guerra gera custo milionário a exportador de carnes do Brasil
Multa diária por atraso na descarga pode custar de US$ 325 a US$ 475 por contêiner refrigerado, segundo a Macroinfra. Pesquisadores do Insper Agro Global ressaltam que os custos logísticos por causa da guerra têm sido causados por desvios de rota
A cada dia parado à espera de rotas alternativas às zonas de risco no Oriente Médio, um navio de contêineres frigoríficos pode gerar custo adicional de até US$ 570 mil aos exportadores do Brasil, só em multas de demurrage, por atraso na descarga. Desde que eclodiu a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, o transporte marítimo de carnes tem sido o mais afetado com despesas logísticas. Além da demurrage, as cargas estão sujeitas a taxas por risco de guerra e desvio de itinerário, mais altas para os contêineres frigoríficos. Demurrage é uma tarifa diária cobrada pelo proprietário de um navio ao fretador, quando a embarcação fica atracada por mais tempo do que o prazo contratado. Em geral, a multa por demurrage pode custar de US$ 325 a US$ 475 por contêiner refrigerado de 40 pés ao dia, segundo estimativa da Macroinfra Consultores. Ou seja, se o atraso durar duas semanas, por exemplo, a multa pode chegar a US$ 6.400 por contêiner no período. Segundo Olivier Girard, diretor da Macroinfra, os navios que normalmente operam no Brasil têm capacidade para carregar de 800 a 1.200 contêineres refrigerados em uma única viagem. Se considerado um navio carregado com 1.200 contêineres e a taxa de demurrage de US$ 475, o custo diário será em torno de US$ 570 mil. “Esse valor [do demurrage] varia conforme o armador, tamanho do navio, causa do atraso, volume sendo transportado, tipo de carga, contrato assinado, entre outros critérios”, explica Girard. Pesquisadores do Insper Agro Global ressaltam que, paralelamente às despesas de demurrage, os custos logísticos por causa da guerra têm sido causados por desvios de rota, elevação da percepção de risco e aumento dos prêmios de seguro no transporte marítimo. “O resultado é a ampliação das despesas operacionais ao longo da cadeia”, diz o Insper em estudo. O conflito desencadeou o bloqueio da navegação pelo Estreito de Ormuz, localizado entre os golfos Pérsico e de Omã, por onde passam pelo menos 20% da produção mundial de petróleo, e outras mercadorias com origem e destino ao Oriente Médio. Segundo o Insper, a guerra coloca em risco a movimentação marítima também pelo estreito de Bab el-Mandeb, que dá acesso ao Canal de Suez, no Egito. Na quinta-feira (5), a MSC, uma das maiores empresas de transporte marítimo do mundo, passou a aplicar uma Sobretaxa de Risco de Guerra (WSR) a todas as cargas que saem da Península Arábica para a para a África Ocidental, África Oriental, África do Sul, Moçambique e as ilhas do Oceano Índico. A tarifa é de US$ 4.000 por contêiner refrigerado, US$ 3.000 por contêiner de 40 pés e US$ 2.000 por contêiner de 20 pés. A MSC também declarou fim da viagem para todas as remessas atualmente sob sua custódia, em terra ou no mar, com destino a portos no Golfo Pérsico. “Será aplicada uma sobretaxa obrigatória de US$ 800 por contêiner a todas as remessas afetadas, sem exceção, para cobrir os custos de desvio”, informou em seu site. Segundo a companhia, todas as remessas em trânsito serão desviadas para o próximo porto seguro de descarga e pode haver outros custos “de responsabilidade exclusiva da carga”. Já a Maersk passou a suspender, desde ontem, as reservas de cargas frigoríficas originárias, destinadas ou em trânsito para os Emirados Árabes Unidos, Omã, Iraque, Kuwait, Jordânia, Catar, Bahrein e Arábia Saudita. Os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita e o Iraque são os três principais destinos do frango do Brasil, respectivamente. A Hapag-Lloyd e a CMA foram algumas das primeiras armadoras a suspender a travessia do estreito de Ormuz e aplicar Sobretaxa de Risco de Guerra, com vigência desde o dia 2 de março. A tarifa da Hapag-Lloyd é de US$ 1.500 por TEU para contêineres-padrão, enquanto os contêineres refrigerados têm taxa de US$ 3.500 por unidade. A taxa da CMA chega a US$ 4.000 por contêiner refrigerado. “Entendemos que essas medidas podem impactar suas operações logísticas e de cadeia de suprimentos, no entanto, são etapas necessárias que também acarretam custos operacionais adicionais”, afirmou a CMA em nota. As duas empresas também suspenderam as reservas de contêineres refrigerados com destino a países do Oriente Médio, como os Emirados Árabes Unidos. O presidente da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, William Adib Dib Junior, disse que não há expectativa de interrupção nos envios de cargas à região. “Cerca de 75% das exportações brasileiras [ao mercado árabe] são alimentos, produtos considerados essenciais. Devem ser encontradas rotas alternativas”, afirmou ao Valor. Segundo o dirigente, o principal efeito é, de fato, o custo maior pela necessidade de uma logística diferenciada. Uma das possibilidades de rota que têm sido avaliadas é o golfo de Omã.
VALOR ECONÔMICO
MBRF e JBS ampliaram aposta no Oriente Médio com aquisições e parcerias
Empresas buscam formas de garantir o abastecimento local em meio à guerra no Irã. Utilização de estoques e novas rotas logísticas são as principais alternativas em análise por frigoríficos brasileiros no Oriente Médio
Companhias como MBRF e JBS, que atuam no Oriente Médio, buscam formas de garantir o abastecimento local em meio à guerra no Irã, após grandes investimentos, aquisições e parcerias feitas na região. Utilização de estoques e novas rotas logísticas são as principais alternativas em análise. Com a escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã nas últimas semanas, a MBRF já havia desenhado um plano de contingência e reforçado estoques de frango, tanto de produtos acabados quanto de carne in natura a ser processada em suas fábricas na região, disse uma fonte do setor ao Valor, sob condição de anonimato. O volume seria suficiente para garantir o abastecimento regional por mais de um mês. A companhia controlada por Marcos Molina tem hoje três unidades de carne de frango no Oriente Médio: uma em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, e duas na Arábia Saudita, nas cidades de Dammam e Al Jubail. Tem ainda 11 centros de distribuição, que recebem e armazenam carne bovina importada que abastece a região, além de dois escritórios comerciais. Em todas as unidades, são cerca de 2 mil colaboradores. Em abril de 2025, antes da fusão com a Marfrig, a BRF Arabia Holding Company, em que a BRF tem parceria com a Halal Products Development Company (HPDC), anunciou a construção de uma fábrica de processados de frango em Jeddah, na Arábia Saudita, que absorverá US$ 160 milhões. Em outubro, já como MBRF, a companhia e a HPDC anunciaram a criação da Sadia Halal, unidade que reunirá fábricas da MBRF, suas empresas de distribuição no Catar, Kuwait e Omã e o negócio de exportações de aves, bovinos e processados a clientes na região. No momento, o foco da MBRF, segundo a fonte, não é redirecionar a outros países cargas que chegariam à região pelo Estreito de Ormuz, fechado em razão da guerra no Irã, mas abastecer as nações árabes. A estratégia é necessária inclusive porque suas fábricas precisam do frango exportado pelo Brasil para transformá-la em produtos processados. A alternativa com maior força, hoje, é acessar o Oriente Médio pelo estreito de Bab al-Mandab, entre o Iêmen e Djibouti, na África, e que dá acesso ao Mar Vermelho e à costa oeste da Arábia Saudita, onde a empresa tem fábricas. Dali, disse a fonte, as cargas poderiam ir por estradas a outros países. Mas outras possibilidades estão sendo estudadas, como acessar Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, pelo porto de Khorfakkan, que fica antes do estreito de Ormuz. O setor também considera usar o porto de Salalah, no sul de Omã, para então transportar cargas por via terrestre até Dubai, disse ao Valor, na quarta-feira o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin. De acordo com uma outra fonte do setor, MBRF e JBS também possuem estoques de carne bovina para processamento na região. No segmento de carne de frango, a JBS, por meio da Seara, vinha reforçando investimentos no Oriente Médio para fazer frente à demanda do mercado halal e aos movimentos da concorrência. O último, anunciado em fevereiro, foi a aquisição, por US$ 150 milhões, de 80% da holding recém-criada pela Oman Food Capital (OFC), braço de investimentos em alimentos da Oman Investment Authority (OIA). A transação envolveu a unidade de aves em fase de conclusão no norte de Omã e uma indústria de processamento de carnes bovina e cordeiro no sul do país, que deve começar a produzir em até seis meses, informou a JBS na época. A JBS também tem duas plantas na Arábia Saudita, em Jeddah, de frango e processados, e Damman, de carne bovina, linguiças e salsicha de frango e peito de aves. Em janeiro, anunciou a expansão da unidade de Jeddah, para dobrar a produção até o fim deste ano. A fábrica opera desde 2025 e exporta a países da região. Em todas as operações do Oriente Médio e norte da África, são cerca de 2 mil colaboradores. O Oriente Médio tem considerável relevância para os negócios das companhias. Em 2024, 14,2% das exportações da JBS foram para a África e Oriente Médio, segundo sua apresentação de resultados. Já a Sadia é líder de vendas na região que compreende a Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã, com 36,9% de participação. Procurada, a MBRF não comentou o assunto. A JBS não respondeu à reportagem.
VALOR ECONÔMICO
Parceria com DistriBoi, de Rondônia, abre caminho para Frigol exportar para os EUA
Acordo contempla duas plantas em Ji-Paraná e Rolim de Moura. As unidades da DistriBoi também são habilitadas para exportar para diversos mercados em que a FriGol já atua
A produtora de carne bovina FriGol firmou um contrato de prestação de serviços de industrialização com o frigorífico DistriBoi, de Rondônia, contemplando as duas plantas da empresa em Ji-Paraná e Rolim de Moura. A parceria deve permitir à FriGol começar a exportar para os Estados Unidos, já que as unidades da DistriBoi já são habilitadas para exportar para o país. Pelo acordo, firmado no último dia 3, a FriGol será responsável pela compra dos animais e pela comercialização dos produtos, enquanto a DistriBoi realizará o abate, a desossa e o processamento em suas unidades. As unidades da DistriBoi também são habilitadas para exportar para diversos mercados em que a FriGol já atua, reforçando a posição da companhia em nações como China, Israel, Chile e Canadá. “O movimento está alinhado ao plano de expansão sustentável da companhia, combinando ganho de eficiência operacional com rigor na gestão financeira e elevados padrões de qualidade, conformidade regulatória e governança”, disse a FriGol em comunicado. Em janeiro, a FriGol havia fechado outra parceria em Rondônia com o frigorífico RioBeef. Pelo acordo, gado adquirido pela FriGol será abatido e desossado pelo RioBeef na sua planta de Ji-Paraná.
GLOBO RURAL
FRANGOS & SUÍNOS
Suínos/Cepea: Em um ano, preço do suíno recua 20% em SP
As cotações médias do suíno vivo registraram fortes quedas em fevereiro. Na praça SP-5 (Bragança Paulista, Campinas, Piracicaba, São Paulo e Sorocaba), o animal vivo foi negociado à média de R$ 6,91/kg no mês, contra R$ 8,24/kg em janeiro/26 (expressiva baixa de 16,1%) e R$ 8,66/kg em fevereiro/25 (forte desvalorização de 20%).
Segundo pesquisadores do Cepea, o movimento de queda se deve à retração da procura por parte da indústria por lotes de animais no mercado independente, que resultou em um desarranjo da oferta interna. Neste mês de março, agentes do setor consultados pelo Cepea estão atentos ao conflito no Oriente Médio, envolvendo principalmente o Irã e que pode se alastrar para outros países. Apesar de a região como um todo não ser um destino importante da carne suína brasileira (por conta sobretudo da religião), o fechamento de canais de escoamento estratégicos e o consequente aumento nos valores dos fretes e seguros marítimos têm gerado preocupações, sobretudo entre exportadores.
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