Blog do Felipe Kleiman: Kosher e halal na Europa, nichos emergentes para a indústria frigorífica do Mercosul

O redesenho do abastecimento de carnes kosher e halal na Europa é motivo de atenção das indústrias do bloco, mesmo antes da celebração do acordo Mercosul-União Europeia. E, mesmo considerando os obstáculos que o acordo terá que sobrepujar, esse mercado pode ser desenvolvido desde agora.

O abate religioso sem insensibilização prévia vem enfrentando oposição sistemática em vários países europeus. No presente momento, vários países discutem – seja na sociedade, seja no legislativo – a proibição do abate religioso tradicional. Isso afeta a totalidade do abate kosher e 16% do abate halal naqueles países.

Organizações diversas, cada uma com sua agenda, têm avançado muito nos últimos anos e conseguido a proibição do abate sem insensibilização em vários países. O que na prática significa banir o abate kosher e aquela parcela do abate halal que segue o rito tradicional.

Na Bélgica, essa modalidade de abate está proibida desde o início de 2019. Na Suíça, é proibido o abate e há movimentos no parlamento de proibir a importação e comercialização. Itália, Portugal, França, Holanda, Polônia e Reino Unido têm em comum o fato de estarem – em algum nível da sociedade ou política – discutindo o banimento do abate religioso tradicional.

A maior parte dos consumidores halal da Europa (84%) aceita que o animal seja insensibilizado antes da degola religiosa. Mesmo assim, os consumidores muçulmanos dentro dos 16% que não aceitam a insensibilização prévia são expressivos. Alemanha e França têm, juntas, em torno de 9 milhões de muçulmanos.

O Reino Unido atualmente está engessado (pela União Europeia) para legislar em matérias similares. Líderes dessas comunidades com que tenho me reunido recentemente preveem que, se o BREXIT se consolidar, o Reino Unido será o próximo país a deliberar sobre o assunto no legislativo.

Com tudo isso, já começa a haver uma nova dinâmica de suprimento de carne kosher e halal tradicional em diversos países. Nações que até pouco tempo eram autossuficientes, começam a importar. E alguns dos que são uma alternativa atual na Europa em breve poderão deixar de produzir pelas mesmas razões. É o caso da Polônia.

E de que maneira os frigoríficos do Mercosul e também outros países da América Latina podem conquistar esses nichos nos diversos países da Europa?

Halal

Durante a feira SIAL Paris em outubro do ano passado, a Câmara de Comércio Árabe Brasileira juntamente com Apex e Abiec realizaram um brilhante evento, o Arab Halal Day, para promover a carne halal brasileira, que historicamente é exportada apenas para os países do Oriente Médio e Ásia. Essa foi a terceira ação do gênero promovida na Europa nos últimos anos por essas organizações.

Frigoríficos da região podem se especializar justamente no tipo de abate halal que quase não se pratica por aqui, e que mais vai sofrer com o banimento do abate religioso: o abate halal tradicional, sem atordoamento. Somando-se a isso um nível alto de conformidade com as diretrizes de bem-estar animal, teremos a capacidade de dissipar dúvidas e questionamentos neste quesito e liderar nesse nicho europeu.

Kosher

Tradicionalmente, o Mercosul exporta carne bovina kosher apenas para Israel. A exceção é o Uruguai, que envia carne kosher para os Estados Unidos e, eventualmente, outros destinos. Historicamente, as plantas brasileiras que abatem kosher não estão no eixo geográfico mais nobre em termos de acesso a mercados. Isso tem uma lógica, já que Israel aceita plantas com esse perfil. Porém, estão deixando de explorar outros aspectos do negócio que o mercado kosher de Israel valoriza: qualidade, marmoreio, maciez. O Brasil não exporta (com regularidade e volume) carne kosher de qualidade diferenciada para Israel. Vale lembrar que se trata de cortes de dianteiro, por razões religiosas.

A virtuosa difusão do cruzamento angus-nelore e a profissionalização da atividade de confinamento no Brasil criaram uma crescente oferta de animais de qualidade diferenciada, geralmente abatidos em plantas que acessam mercados top. Há sempre um excedente de carne de dianteiro desses animais que não encontra uma colocação “justa” no mercado em geral, que otimize a conta daquele animal com custo de produção mais alto, principalmente depois que grandes redes de fast food deixaram de comercializar hambúrgueres de carne angus.

Para poder alcançar o novo nicho kosher da Europa, as empresas frigoríficas brasileiras precisam rever seu posicionamento sobre quais plantas devem estar equipadas e habilitadas a produzir kosher e investir para atingir um alto nível de conformidade com bem-estar animal no abate religioso.

Uma abordagem estratégica correta dos assuntos relativos a bem-estar animal nos abates religiosos vai desambiguar a aparente contradição que motiva a segregação da produção kosher para plantas “não Europa”. Trata-se de certificar – mediante protocolos específicos e reconhecidos – o nível de conformidade de bem-estar animal daquele abate religioso.

Conciliar a produção regular de carne de qualidade com o mercado kosher pode ser o grande mote para conquistar esse mercado na Europa, agregar valor para Israel e melhorar o resultado geral das operações de produção de carne de qualidade superior por meio de um dianteiro muito bem vendido.

Conheça o blogger

Felipe Kleiman (e-mail: felipekleiman@gmail.com) é fundador da KLM – Kosher Consult. Ele assessora fabricantes de boxes rotativos para otimização de design que atenda aos requisitos kosher, que incluem as leis religiosas e ergonomia aplicada. Kleiman possui experiência no fortalecimento da relação entre requisitos religiosos, operacionais e de bem-estar animal. Ele gerenciou operações kosher em mais de 20 frigoríficos, 12 dos quais foi responsável pela conversão ao sistema kosher. Atua no segmento desde 1999 e desenvolveu projetos no Brasil, Argentina, Uruguai, Estados Unidos, México e Israel.

Fonte: Carnetec

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